O Alcorão no Islam II

10:14 - 2024/06/10

O Alcorão se compõe dos seguintes fundamentos islâmicos que juntos formam um todo interligado: um sistema primordial de crença na unidade de Deus, na profecia e no Dia do Ajuste de Contas, que é acompanhado por um segundo grupo de crenças, a saber, a crença no Livro Celeste, no Cálamo (que traça a seqüência dos eventos cósmicos), o governo do destino e do decreto (sem que implique pré-determinismo), nos anjos, no Trono do Criador, e por fim, na criação do céu, da terra e de tudo o que há entre eles.

O Alcorão no Islam

Este versículo demonstra que o termo “Sabil Allah” - a senda de Deus - empregado no versículo se refere ao “din al fitrah” - o modelo inerente da vida humana pretendido por Deus. Também indica que mesmo aqueles que não acreditam em Deus executam Seu din, muito embora o façam de um modo desviado, esse desvio, que se torna seu din, se encontra também no âmbito do programa de Deus. A melhor e mais fundamentada senda na vida para o homem é a que é ditada por seu ser inato e não pelos sentimentos de algum indivíduo ou sociedade.

Um exame cuidadoso de qualquer parte da criação revela que, desde o seu princípio, é guiada por um propósito inato no sentido de cumprir sua natureza no curso da mais apropriada e mais curta senda; cada aspecto de cada parte da criação é preparado para realizar isso, atuando como um protótipo para a definição da natureza de sua existência. De fato, tudo na criação, seja animado ou inanimado, é criado desse modo.
Como um exemplo, podemos dizer que um broto, surgindo de uma única semente na terra, é “ciente” de sua existência futura como uma planta que produzirá um ramo de trigo. Por meio de suas características inerentes, o broto adquire vários elementos minerais para o seu crescimento a partir do solo e para as alterações seguintes, dia após dia, na forma e no fortalecimento até que se torne um grão completamente maduro para portar a planta, e assim chega ao fim seu ciclo natural.
De modo semelhante, se investigarmos o ciclo de vida da nogueira, observaremos que esta também é “ciente” desde o início, quanto a seu propósito específico na existência, isto é, se tornar uma frondosa nogueira. Alcança essa meta se desenvolvendo de acordo com suas características inerentes; não segue, por exemplo, o curso do pé de trigo, da mesma maneira que este não segue o modelo de vida da nogueira.
Uma vez que cada objeto criado que forma o mundo visível está sujeito à mesma lei geral, não há razão para duvidar que o homem, como uma espécie da criação, não esteja igualmente sujeito. De fato, suas aptidões físicas formam a melhor prova dessa lei, como o resto da criação é permitido a ele realizar seu propósito, alcançar a máxima felicidade na vida.
Assim, observamos que o homem, na realidade, se orienta à felicidade e ao bem estar simplesmente pela aplicação das leis fundamentais inerentes à sua própria natureza.

Essa lei é confirmada por Deus no Alcorão, por intermédio de seu profeta Moisés, quando ele diz, “Nosso Senhor, foi Quem deu a cada coisa sua natureza; e em seguida, encaminhou-a”[1]. E é ainda explicado no capítulo 87 versículos 2 e 3, “Ele que criou e aperfeiçoou tudo; que tudo predestinou e encaminhou”.

 Quanto à criação e a natureza do homem, o Alcorão diz, “Pela alma e por quem a aperfeiçoou; e lhe imprimiu o discernimento entre o certo e o errado, que será venturoso quem a purificar e desventurado quem a corromper[2]”.Deus impõe como encargo ao homem o “esforço no sentido de uma sincera aplicação do din” (isto é, o fitrah de Deus ou o código natural de comportamento sobre o qual Ele criou o gênero humano), já que “a criação de Deus é imutável (em suas leis)”[3].
Ele (Deus) também diz que: “Para Deus, a religião é o Islam”[4] . Aqui, Islam significa submissão, o método de submissão a essas mesmas leis. O Alcorão, além disso, alerta que “(as ações) de quem almeja outro din, que não seja o Islam, jamais serão aceitas...[5]” . O ponto essencial dos versículos supramencionados, e das demais referências ao mesmo tópico, é que Deus guiou toda criatura, quer seja humana, animal ou vegetal - a um estado de bem estar e plenitude apropriado a sua formação individual. Assim, a senda adequada ao homem se encontra na adoção das leis pessoais e sociais específicas a seu próprio fitrah (natureza inata) e no afastamento das pessoas que se tornaram “desnaturadas” por seguirem suas próprias noções ou paixões.

Está claramente frisado que o fitrah, longe de negar os sentimentos e as paixões humanas, concilia cada um deles a seu apropriado desígnio e permite que as conflitantes necessidades espirituais e materiais do homem sejam satisfeitas de um modo harmonioso. Portanto, podemos concluir que o intelecto (aql) deve governar o homem nas questões pertinentes às decisões individuais ou pessoais, e não seus sentimentos.

De modo semelhante, a verdade e a justiça devem governar a sociedade e não os caprichos de um tirano ou mesmo a vontade da maioria, se esta vontade for contrária ao verdadeiro benefício da sociedade. Disso concluímos que somente Deus está habilitado a estipular as leis, uma vez que as únicas leis proveitosas ao homem são as que são feitas segundo sua natureza inata.
O que também resulta disso é que as necessidades humanas, que surgem de circunstâncias externas e de sua realidade interior, somente são atendidas por meio da obediência às orientações (ou leis) de Deus.

Essas necessidades podem surgir mediante eventos além do controle do homem ou como resultado das exigências naturais de seu corpo. Ambos se encontram no âmbito do plano da vida que Deus designou para o homem. Pois, o Alcorão diz, “a decisão compete somente a Deus...[6]”  que significa dizer que não há autoridade (sobre o homem a sociedade, o visível ou o invisível) senão a de Deus. Sem um plano de criação específico, fundamentado na inclinação inata do homem, a vida seria infrutífera e sem sentido. Podemos entender isso apenas por meio da crença em Deus e um conhecimento de Sua unicidade, como foi explicado no Alcorão.

A partir disso, poderemos prosseguir até uma compreensão do Dia do Juízo, quando o homem será recompensado ou punido segundo suas ações. E então, poderemos chegar ao conhecimento dos profetas e dos ensinamentos proféticos, uma vez que o homem não pode ser julgado sem que primeiramente seja orientado no que se refira à obediência ou desobediência. Esses ensinamentos fundamentais são considerados os pilares do modo de vida islâmico.

Sayyid Muhammad Husayn Tabataba'i

 A estes, podemos acrescentar os funda[1]mentos do bom caráter e da moral que um crente verdadeiro deve possuir e o que é uma necessária extensão das três crenças básicas mencionadas acima. As leis que governam a atividade diária não apenas garantem a felicidade do homem e o caráter moral, mas, de modo mais importante, ampliam a compreensão dessas crenças e dos fundamentos do Islam. É evidente que um ladrão, um traidor, um esbanjador ou um libertino não possuem a qualidade da inocência; tampouco um avaro, que acumula o dinheiro, pode ser chamado de generoso.
De modo semelhante, um indivíduo que nunca ora ou se recorda de Deus não pode ser chamado de crente em Deus e no Último Dia, nem ser descrito como um de Seus servos. Com isso, podemos concluir que o bom caráter floresce quando é ligado a um padrão de ações corretas; a moral se encontra no homem cujas crenças estão em harmonia com esses fundamentos. Não se pode esperar que um homem orgulhoso seja crente em Deus e nem que seja humilde no que se refere ao Divino; nem que o homem que jamais entendeu o significado da humanidade, da justiça, da misericórdia ou da compaixão, creia no dia da Ressurreição e do Julgamento. O capítulo 35, versículo 10 trata da relação entre um sistema fiel de crença e um caráter adequado: “Até Ele ascendem as palavras puras e as nobres ações”. No capítulo 30, versículo 10 ficamos cientes outra vez dessa relação entre crença e ação: “e o destino daqueles que cometeram o mal será pior, pois desmentiram os versículos de Deus e deles escarneceram!”.

Para resumir, o Alcorão se compõe dos seguintes fundamentos islâmicos que juntos formam um todo interligado: um sistema primordial de crença na unidade de Deus, na profecia e no Dia do Ajuste de Contas, que é acompanhado por um segundo grupo de crenças, a saber, a crença no Livro Celeste, no Cálamo (que traça a seqüência dos eventos cósmicos), o governo do destino e do decreto (sem que implique pré-determinismo), nos anjos, no Trono do Criador, e por fim, na criação do céu, da terra e de tudo o que há entre eles.

E por isso, observamos que o bem estar do homem se encontra na harmonização de seu caráter a esses princípios. A shariah (as leis e o código de comportamento explicado no Alcorão e comentado detalhadamente pelo modelo de vida do Profeta) é o meio pelo qual o homem pode por em prática tais princípios. Aqui devemos acrescentar que os Ahlul Bayt (a família do Profeta) foram os seus herdeiros e receberam a tarefa de exemplificar e explicar em seus pormenores a mensagem profética e a shariah após o falecimento do Profeta. O próprio Profeta, na tradição2 conhecida como hadith al thaqalayn3 , a qual todos os grupos do Islam acatam, se refere especificamente a essa questão da sucessão.
O Alcorão no Islam Allamah Ayyatullah Al-Odhmah Assayed Mohammad Hussein Al-Tabatabaí (K.S.) p 21
O Alcorão no Islam  

 

[1] . C.20 – V.50

[2] . C.91 – V. 7 a 10

[3] . C.30 – V.30

[4] . C.3 – V.19

[5] . C.3 - V85

[6] . C.12 – V.40, 67

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