COMO SE CONSTITUÍRAM OS XIITAS IV

15:00 - 2022/07/26

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COMO SE CONSTITUÍRAM OS XIITAS

Após a morte do Profeta (S.A.A.S.), e à medida que este acontecimento se distanciava, e que os Muçulmanos se acostumavam pouco a pouco a considerar aos Ahlul Bait (A.S.) e a Imam Ali (A.S.) como homens normais e “governados”, acabaram por ignorar sua posição de alta autoridade espiritual. Porém, não podendo permanecer desocupada esta posição, ela foi conferida, não ao Califa no poder, mas sim, ao conjunto dos Companheiros. E como a autoridade espiritual dos Ahlul Bait (A.S.) já não era respeitada, a do conjunto dos Companheiros, qu havia tomado o lugar daquela, parecia mais apropriada pela razão de que estes Companheiros haviam estado muito tempo com o Profeta (S.A.A.S.), e haviam vivido com ele, com sua experiência, seus dizeres e sua Tradição.

Desta maneira, os Ahlul Bait (A.S.) haviam praticamente perdido seu privilégio Divino e sua primazia espiritual, e foram diminuídos em sua autoridade espiritual, em sua qualidade de Companheiros entre os Companheiros. E deu-se que os próprios Companheiros estavam divididos por graves discussões e contradições profundas que os opunham uns aos outros, conduzindo-lhes em certas ocasiões à batalhas, derramamento de sangue e acusações recíprocas de desvio e traição, o que fez com que as diversas contradições doutrinárias e ideológicas aparecessem no corpo da Comunidade Islâmica como reflexo das distintas contradições no interior da própria autoridade espiritual que havia criado o ijtihad.

Antes de terminar minha exposição, gostaria de dizer que certos pesquisadores tendem a separar o Xiismo em duas correntes distintas: o xiismo espiritual e o xiismo político, crendo que o primeiro seja mais antigo que o segundo e que depois do massacre de Karbalá, onde Imam Hussein ibn Ali (A.S.) foi assassinado, os Imames dos Ahlul Bait (A.S.), seus descendentes, tenham se desinteressado deste mundo, renunciando a política e se consagrando à predicação e às práticas culturais.

Pois bem, esta distinção não corresponde à verdade, pois, desde seu nascimento, o Xiismo jamais foi uma tendência puramente espiritual. Melhor ainda, nasceu exatamente, tal como explicamos quando tratamos de seu nascimento, como uma posição que defende a designação do Imam Ali (A.S.) para a continuação da Liderança Espiritual e social da Comunidade Islâmica após o falecimento do abençoado Profeta Mohammad (S.A.A.S.). Por conseguinte, não é possível, em razão das circunstâncias antes citadas, separar o aspecto espiritual do aspecto social na tese do Xiismo, da mesma forma que não se pode separá-la do próprio Islam. O Xiismo não poderia ser objeto de semelhante distinção, a não ser que fosse esvaziado em seu conteúdo, ou seja, de sua qualidade de posição que trata de salvaguardar o futuro do Chamado Islâmico depois do Profeta (S.A.A.S.). Porque, para salvaguardar este futuro, a Experiência Islâmica teria necessidade de uma autoridade espiritual e ideológica, de uma liderança sócio-política.

Porquanto, que como sucessor digno de continuar o papel de seus três predecessores, na liderança do poder, o Imam Ali (A.S.) gozava amplamente da lealdade dos Muçulmanos, lealdade que o conduziu efetivamente ao Califado depois do assassinato do terceiro Califa, Othman. Porém, esta lealdade não é nem Xiismo espiritual, nem Xiismo político, posto que o Xiismo significa: “A crença na disposição que faz de Ali (A.S.) o sucessor legítimo e direto do Profeta (S.A.A.S.), em lugar dos três califas que o precederam no poder.” Ela é, por conseguinte, mais extensa que o verdadeiro Xiismo integral, espiritual e socio-político. Eis porque não se poderia considerar o Xiismo integral como um exemplo de Xiismo parcial, ainda que tenha se desenvolvido dentro do limite desta extensa fidelidade.

 Por outro lado, Imam Ali (A.S.) se beneficiara da lealdade espiritual e ideológica de um grande número de Companheiros notáveis, tais como Salman, Abu Dharr, Ammar e outros, na época de Abu Bakr e de Omar. Porém, ainda assim, não se pode chamar esta lealdade de “Xiismo espiritual distinto do Xiismo político”, já que esta lealdade não expressa, de fato, senão a crença daqueles Companheiros, segundo a qual a direção espiritual e política do Chamado Islâmico recaíam sobre o Imam Ali (A.S.) imediatamente depois do falecimento do Profeta (S.A.A.S.). Enquanto que sua crença no aspecto ideológico da autoridade de Ali (A.S.) havia se manifestado em sua citada lealdade, sua crença no aspecto político tinha se materializado em sua oposição ao Califado de Abu Bakr, e à corrente que havia levado a atribuir a outros, o poder que recaía sobre o Imam Ali (A.S.).

A visão fragmentária de um Xiismo espiritual separado do Xiismo social, não apareceu efetivamente e nem nasceu no espírito xiita senão quando este foi submetido à realidade, e a ardente brasa do Xiismo, esta vinculação específica à uma liderança Islâmica legal, encarregada de continuar a edificação da Comunidade Islâmica após a morte do Profeta (S.A.A.S.) e de levar a cabo a grande operação de transformação empreendida por este, se extinguiu nele, transformando-se numa simples doutrina que se guarda no coração, na qual se busca esperança e consolação.

 Aqui nos encontramos com a afirmação, segundo a qual os Imames dos Ahlul Bait (S.A.A.S.) que sucederam ao Imam al-Hussein (A.S.) haviam retirado da vida social e se desinteressado do mundo.

Recordemos, a propósito disto, em primeiro lugar, que o Xiismo, como já vimos, é uma fórmula que expressa a vinculação da Liderança Islâmica (pré-designada, portanto, Infalível), e que não significa nada mais do que a continuação da ação de transformação empreendida pelo Profeta (S.A.A.S.), a fim de completar a edificação da Comunidade Islâmica com base no Islam. Sabendo-se disso, não é possível conceber que os Imames (A.S.) pudessem renunciar a vida social, sem renunciar por sua vez ao Xiismo. O que deixa crer, por conseguinte, que estes Imames (A.S.) haviam renunciado ao aspecto social de sua autoridade, é por uma parte pelo fato de que não empreenderam uma ação armada, e por outra, o fato de que se confere à aceitação do aspecto social, um sentido estreito que não produz senão a ação armada.

Possuímos muitos textos que demonstram que os Imames (A.S.) estavam sempre dispostos a passar à luta armada, se tivessem a convicção da existência de homens preparados a participar dela, e que houvesse a possibilidade de realizar mediante esta luta os fins Islâmicos determinados. Quando repassamos a rota histórica do movimento Xiita, observamos que a liderança Xiita, representada pelos Imames dos Ahlul Bait (A.S.), acreditava que o acesso ao poder não seria suficiente, ou seja, não se poderia realizar Islamicamente a operação de transformação, se este poder não estivesse apoiado em bases populares conscientes de seus objetivos, bases populares que cressem em sua teoria de Governo, dispostas a protegê-lo (governo) e capazes de explicar suas posições às massas, resistindo à todas as complicações.

 É por isso que durante a primeira metade do século que se seguiu após a morte do Profeta (S.A.A.S.), a liderança Xiita tratou sempre de recuperar o poder, depois de haver sido excluída, por todos os meios em que acreditava, posto que pensava existirem bases populares conscientes, entre os Mohajerin, os Ançar e os seguidores, porém, meio século mais tarde, quando estas bases populares haviam desaparecido, e quando se assistia o nascimento, sob um reinado corrupto, de gerações negligentes, a tomada do poder por parte do movimento Xiita não poderia conduzir à realização do grande objetivo Islâmico, em virtude da ausência de uma base popular pronta a prestar, conscientemente, o apoio e o sacrifício necessário.

Diante de tal situação, era indispensável para a liderança Xiita, levar a cabo dois tipos de ação:
1- Agir com o escopo de constituir bases populares conscientes, para a preparação do terreno com o intuito da tomada do poder.
2- Reunir a consciência e a vontade da Comunidade Islâmica, e mantê-las num grau de firmeza e energia que pudessem imunizar a Comunidade Islâmica contra o risco de ceder inteiramente em sua dignidade e identidade aos governantes corruptos.

O primeiro tipo de ação era posto em prática pelos próprios Imames (A.S.), o segundo tipo, pelos Alawitas rebelados que tentavam, com seus desesperados sacrifícios, proteger a consciência e a vontades Islâmicas. Imam Ali ibn al-Redha (A.S.) falava do mártir Zaid ibn Ali ao califa al Mamun nos seguintes termos:

“Ele estava entre os Sábios da Família do Profeta (A.S.). Se levantou contra os inimigos de Deus e os combateu até que foi morto na causa de Deus. Meu pai, Mussa ibn Jafar, me contou que seu pai, Jafar, dizia: “Que Deus conceda sua misericórdia a meu tio Zaid, o qual havia feito um chamado para apoiar aos descendentes da Família do Profeta (A.S.). Se houvesse ganho, teria cumprido com seu compromisso diante de Deus.” (al Wasa’il, Kitab al-Jihad) Assim, o fato que os Imames (A.S.) tenham renunciado a ação armada direta contra os corruptos e usurpadores, não significa que tenham abdicado do aspecto social de sua autoridade, nem que tenham se limitado às práticas culturais, esse fato apenas expressa a diferença nos métodos de ação social segundo as condições objetivas, e traduz sua profunda consciência da natureza e da ação de transformação que deveria ser posta em prática, e do meio para sua realização.

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